Thursday, March 23, 2006

Teresa Cascudo


Cabe a vez, a outra senhora que tive a sorte de ter como professora, desta feita de Teoria da Música e História da Música quer Ocidental quer em Portugal, outra grande mulher que se destaca num mundo maioritariamente de homens.


Teresa Cascudo (n. Figueres, 1968) es actualmente profesora de la licenciatura on-line en Historia y Ciencias de la Música, impartida desde 1999 en la Universidad de La Rioja. Se licenció en Filosofía y Letras en la Universidad de Zaragoza, habiendo cursado su diplomatura en Logroño, en el entonces Colegio Universitario de La Rioja. Concluyó el grado medio de piano en el Conservatorio Profesional de Música de Logroño. Fue becaria Erasmus en las Universidades de Lyon y Nantes, y del Ministerio de Asuntos Exteriores en la Universidade Nova de Lisboa. Es doctora en Ciencias Musicales (especialidad Ciencias Musicales Históricas) por la Facultad de Ciencias Sociales y Humanas de la Universidade Nova de Lisboa. Su tesis doctoral abordó las consecuencias que la idea de “tradición” tuvo en la obra musical y ensayística del compositor portugués Fernando Lopes-Graça (1906-1994).
Fue profesora de la licenciatura en Música de la Universidad de Évora y asesora del Departamento de Cultura del Ayuntamiento de Cascais, en cuyo Museu de la Música Portuguesa ha comisariado varias exposiciones documentales y donde organizó el archivo del compositor Fernando Lopes-Graça. Es autora del catálogo de su obra musical, publicado en 1997. Ha colaborado como crítica de música en el diario electrónico MundoClásico.com y en el periódico portugués de tirada nacional Público. Comisarió las exposiciones conmemorativas en homenaje de José Viana da Mota (1868-1948) y Frederico de Freitas (1902-1980) organizadas por el Museu da Música de Lisboa, museo nacional dependiente del Ministerio de Cultura portugués.
Forma parte de la dirección de la Associação Portuguesa de Ciências Musicais y es directora-adjunta de la Revista Portuguesa de Musicologia. Es investigadora del Centro de Estudios Interdisciplinares del Siglo XX (CEIS 20), de la Universidad de Coimbra (unidad de investigación homologada por el Ministerio de Estudios Superiores, Ciencia y Tecnología portugués), y está integrada en el grupo Corrientes Artísticas y Movimientos Intelectuales, coordinado por el Profesor António Pedro Pita.

Libros publicados:

A tradição musical na obra de Fernando Lopes-Graça. Um estudo no contexto português (Coimbra: Editorial Ariadne, publicación prevista en 2006).

(editora en colaboración con Ricardo Alves), Fernando Lopes-Graça e os presencistas, primer volumen de la edición de la correspondencia de Fernando Lopes-Graça (Cascais: Câmara Municipal de Cascais, publicación prevista en 2006).

(comisaria de la exposición y editora del catálogo con Helena Trindade) Frederico de Freitas (1902-1980) (Lisboa: Ministério da Cultura/Instituto Português de Museus, 2003).

(comisaria de la exposición y editora del catálogo con Helena Trindade) José Viana da Mota, cinquenta anos depois da sua morte 1948-1998 (Lisboa: Ministério da Cultura/Instituto Português de Museus, 1998)

Catálogo do espólio musical de Fernando Lopes-Graça (Cascais: Casa Verdades de Faria-Museu da Música Portuguesa/Câmara Municipal, 1997).

Cursos y congresos (recientes e inmediatos)

«Fernando Lopes-Graça, compositor e intelectual» (título provisional), Congreso Internacional "O Artista como Intelectual", organizado por motivo del centenario del nacimiento de Fernando Lopes-Graça, Coimbra, abril 2006.

«La ópera en Lisboa entre dos siglos (XIX-XX): problemas de recepción y de construcción de identidad», curso en el Programa de Doctorado "Música, Texto y Representación", Universidad de Salamanca, enero y marzo de 2006.

«A música dos salões em Lisboa como 'emblema de ideologia' na mudança do século (ca. 1900)», II Colóquio Ibero-Americano "Tradição e Modernidade no Mundo Ibérico-Americano", Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, Coimbra, noviembre de 2005.

«Paris em Lisboa: o salão musical da condessa de Proença-a-Velha entre 1899 e 1903», 13ª Encontro de Musicologia (Associação Portuguesa de Ciências Musicais), "Os Espaços da Música", Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, octubre de 2005.

«À procura da música portuguesa: musicologia e nacionalismo em Portugal durante a primeira metade do século XX», X Forum for Iberian Studies, "Charting Transfers, Remapping Iberia", Trinity College, Oxford, junio de 2005.

«Patronage and amateurism in the construction of an aristocratic, feminine and national identity: the case of Countesse of Proença-a-Velha in Portugal», 13th Biennial International Conference on Nineteenth Century Music, St. Chad's College, University of Durham, agosto de 2004.

«25 de Abril em ópera: uma leitura de Os Dias Levantados, de António Pinho Vargas e Manuel Gusmão», Coloquio "O Dia Inteiro: 25 de Abril e depois (artes, artistas, intelectuais)", Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, Coimbra, mayo de 2004.

Artículos publicados:
«Por amor do que é portugués: el nacionalismo integralista y el renacimiento de la música antigua portuguesa entre 1924 y 1934», en Juan José Carreras y Miguel Ángel Marín (eds.), Concierto barroco. Estudios sobre música, dramaturgia e historia cultural (Logroño: Universidad de La Rioja, 2004), pp. 303-324.

«À luz do presencismo: uma leitura da Introdução à música moderna (1942), de Fernando Lopes-Graça», Lecturas: revista da Biblioteca Nacional, 12-13, 2003, pp. 107-124.

«A música em Portugal entre 1870 e 1914», en Michel’Angelo Lambertini. 1862-1920, catálogo da exposição organizada pelo Museu da Música (Lisboa: Instituto Português de Museus / Museu da Música, 2002) pp. 61-71.
“A década da invenção de Portugal na música erudita (1890-1899)”, Revista Portuguesa de Musicologia, 10, 2000, pp. 181-226.
“Relações musicais luso-brasileiras em finais do século XIX”, Revista Camões, Outubro-Dezembro de 2000, pp. 136-141.
“Iberian Symphonism (1779-809): Some Queries”, en Malcolm Boyd and Juan José Carreras (eds.), Music in Spain During the XVIIIth Century (Cambridge University Press, 1998) pp. 144-156.
“Que fazer sem um Camões sinfonista? Fernando Lopes-Graça e o problema da tradição da música portuguesa”, Revista Portuguesa de Musicologia, 6-7 (1995-6) pp. 127-139.
“La formación de la orquestra de la Real Cámara en la corte madrileña de Carlos IV”, Artigrama, 8 (Zaragoza, 1998) pp. 79-98.
“El lenguaje de la música: variaciones sobre una metáfora sugerente”, Revista de Teoría Literaria, 10 (Alicante, 1997) pp. 461-481.
“Penélope musicóloga: musicología y feminismo entre 1974 y 1994” en Marisa Manchado (ed.), Música y mujeres (Madrid: Librería de Mujeres, 1997) pp. 179-190.
Comunicaciones publicadas:

«Wagnerismo y nacionalismo musical en Portugal: la influencia del musicógrafo de origen español Antonio Arroyo», en Mariano Lambea (ed.), Actas del VI Congreso de la Sociedad Española de Musicología, organizado en Oviedo en noviembre de 2004 (en prensa)

«Quimera vs. Razão: a musicologia portuguesa e a musica antiga durante a primeira metade do século XX», en António Pedro Pita y Luís Trindade (eds.), Transformações estruturais do campo cultural português (1900-1959), coloquio organizado por el Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS 20), Coimbra, octubre de 2004 (en prensa)

«The influence of Teófilo Braga in the creation of a `Portuguese national music’», en Anastasia Siopsi (ed.), International Conference Romanticism and Nationalism in Music, Ionian University, Corfu, 17-20 de octubre de 2003 (en prensa)

«Nacionalismo y música en Portugal a finales del siglo XIX», en Enrique Sacau (coord.), Actas del Primer Congreso Internacional de Musicología "La ópera y Vigo" (Vigo: Centro de Estudios Vigueses, 2004).

“Ser moderno en tiempos difíciles: Jesús Bal y Gay visto desde Portugal”, in Charo Ferreira e Inmaculada Pena (eds.), Xornadas sobre Bal y Gay, Santiago de Compostela (Santiago de Compostela: Xunta de Galicia, 2003).

«Fernando Lopes-Graça e os compositores brasileiros: a polémica ‘dodecafonismo vs. nacionalismo’ entre 1939 e 1954 numa perspectiva comparativa», em Manuela Tavares Ribeiro (ed.), Portugal-Brasil: Uma visão Interdisciplinar do Século XX Universidade de Coimbra, 2-5 de Abril de 2003 (Coimbra, Quarteto, 2003).

“Fernando Lopes-Graça, o músico do neo-realismo português”, in Júlio Graça (ed.), Encontro Neo-Realismo, reflexões sobre um movimento, perspectivas para um museu (Vila Franca de Xira: Câmara Municipal, 1999).

“Brasil como espelho, Brasil como argumento, Brasil como tópico: as relações de Fernando Lopes-Graça com a cultura portuguesa” in António Bispo (coord.), Brasil-Europa 500 anos: música e visões (Actas do congresso internacional celebrado em Colónia, em Setembro de 1999) (Colonia: Academia Brasil-Europa, 2000) pp. 258-272.

Ana Ester Neves



A senhora que decidi homenagear hoje, é definitavamente uma grande senhora, de todas as que homenageei até hoje, é a que me está mais próxima e por quem sinto uma admiração sem limites.
Esta senhora foi a minha professora de Canto de uma forma jamais atingida por outra, é a minha fonte de inspiração, com quem aprendi metodos de trabalho mas também lições de vida. Com uma força de vontade inigualável, um amor à arte e à vida fora do comum.
Tenho noção que para quem não a conheça, possa parecer demasiado, mas foi a minha professora de Canto. O lugar que ocupa dentro de mim, jamais será ocupado por outra. E isto só quem me conhece bem consegue compreender.
Por isso faço uma vénia para dar lugar à biografia de Ana Ester Neves, e se Miguel Sousa Tavares disse "Ninguém deve morrer sem ter ido pelo menos uma vez ao deserto!", eu digo-vos: - Ninguém deve morrer sem ter visto Ana Ester Neves em cima de palco!
Reconhecida intérprete de música de câmara, a soprano Ana Ester Neves conta também com uma sólida carreira operática, em Portugal e no resto da Europa. Tem dedicado parte significativa da sua carreira à música contemporânea, com especial destaque para a música portuguesa, tendo estreado óperas de António Pinho Vargas, de Alexandre Delgado e de Theodore Antoniou.
Diplomada pelo Conservatório Nacional de Lisboa, continuou os seus estudos na Royal Academy of Music (Londres) e na Universidade de Boston, onde concluiu o Mestrado em Interpretação. Reconhecida intérprete de música de câmara, tem exercido uma actividade intensa quer em Portugal, quer na Inglaterra, Áustria, Alemanha, Itália, Grécia, Espanha, França e EUA. Nestes paises apresentou-se também nas óperas: Carmen (Micaela), A Traviata (Violetta), As Bodas de Fígaro (Contessa), Eugene Onegin (Tatyana), La Bohème (Musetta), Le Rossignol, L’Isola Disabitata, Porgy and Bess (Bess), D.Giovanni (D. Elvira), The English Cat, Parsifal, Boris Godunov (Xenya), Albert Herring (Lady Billows), Neues vom Tage (Laura) entre outras.
Dedica parte da sua carreira à divulgação da música portuguesa, tendo-a apresentado em recitais em Paris, Madrid, Londres e Turim.
A música contemporânea também tem tido um papel de destaque na sua carreira. Estreou a ópera The Bacchae (Agave) de Theodore Antoniou em Atenas e as óperas portuguesas O Doido e a Morte (D.Aninhas) de Alexandre Delgado, Édipo, ou a Tragédia do Saber (Jocasta) e Os Dias Levantados (O Anjo Camponês) de António Pinho Vargas.
Destacam-se as suas interpretações da 14ª Sinfonia de Chostakovitch, de Les Illuminations de B. Britten, e das Szenen aus Goethes Faust de R.Schumann.
No domínio da oratória destacam-se as suas participações em: Requiem de Mozart, com a Orquestra e o Coro Gulbenkian (Coliseu dos Recreios); Requiem de Brahms (Londres); Cantatas e Weihnachtsoratorium de Johann Sebastian Bach (Lisboa e Londres); e na estreia mundial do Requiem para o Planeta Terra de João Pedro Oliveira.
Ganhou os prémios operáticos Gilbert Betjemann e Ricordi e obteve os primeiros prémios nos Concursos Internacionais de Canto Mary Garden (Inglaterra) e Luisa Todi (Portugal).
Gravou a Sinfonia nº6 de Joly Braga Santos para a Marco Polo e Os Dias Levantados de António Pinho Vargas para a EMI-Classics. Gravou também para a RTP, RDP e BBC.
É membro fundador do Trio Vissi d’Arte e é membro do Grupo de Música Contemporânea de Lisboa.
No campo da Pedagogia foi Professora Assistente da Disciplina de Canto na Universidade de Boston, leccionou Canto no Conservatório Regional do Algarve e na Universidade de Évora e Técnicas e Expressão Vocal na Escola Profissional de Teatro de Cascais. É convidada frequentemente para leccionar masterclasses de Canto nas Universidades e Conservatórios Portugueses. Tem realizado várias Acções de Formação sobre Técnica Vocal para Professores e para Locutores da Rádio e Televisão.

Wednesday, March 22, 2006

Primavera

Foto: Mastrangelo Reino

Batem as ondas do mar suavemente na areia ondulada da praia...

As flores desabrocham levemente nos prados...

Os pássaros, que ainda não estão constipados, chilreiam alegremente por entre voos de corte...

Chegou a Primavera...por entre a água que S. Pedro nos teima em atirar....

Fica aqui o registro!

Leonor Beleza



Continuando as homenagens a grandes mulheres da nossa sociedade, aqui fica uma singela homenagem a Leonor Beleza, o texto é composto por excertos de uma entrevista que deu à revista Máxima há algum tempo.
Uma carreira política toda a vida, porquê?
Quando era estudante, andava num meio onde se falava muito de política. A primeira coisa em que me envolvi foi na SEDES, em 1971. Era miúda, estava no fim do curso, tinha 21 anos. A SEDES, sem ser das oposições declaradas, era o meio onde se discutiam ideias. Eu fazia parte de um grupo de alunos, entre eles o Marcelo [Rebelo de Sousa], que tinha reuniões e ligação com alguns deputados da ala liberal, como o José Pedro Pinto Leite. Vivemos a morte dele como uma possibilidade da Ala Liberal. Só depois emergiu Sá Carneiro. No 25 de Abril, entrei no PPD. Estava na SEDES quando Sá Carneiro entrou a dizer que ia fazer um partido.
Que memórias tem da Faculdade de Direito?
Houve uma evocação da professora Isabel Maria Magalhães Colaço. Falei dessas memórias da Faculdade. A política era um entusiasmo para a nossa idade. Era a história das mulheres, que já me interessava antes, o que era na lei, as discriminações que havia. Formei-me quando a lei me impedia de ser juíza e diplomata. Agora, nos Estados Unidos, contei isso. Além das histórias políticas que vivi com a professora Magalhães Colaço, fiz parte da Comissão de Revisão do Código Civil, de que ela era Presidente. A Constituição de 1976 estabeleceu regras de igualdade que naturalmente punham em causa leis que estavam em vigor no Direito da Família. E em uma parte do Direito das Sucessões. Com vinte e tal anos participei nessa reforma legislativa. Na época, o nosso Direito Civil ficou um Direito não só moderno mas de vanguarda. Fizemos a reforma com dados exaustivos. Foi um trabalho técnico, feito numa época em que nem sempre se cumpriam horas nem prazos, mas nós cumpríamos. Num prazo muito curto, fez-se uma reforma muito exigente e técnica, sobretudo no direito da filiação, o que obrigou a muitos estudos, a muitos fins-de-semana de trabalho. Isso deve-se à personalidade dela. Lembro-me do vestido que eu tinha no dia em que estava à porta do exame de [Direito Internacional] Privado. Ela infundia terror às pessoas. Depois, o exame correu muito bem. Ela ajudou-me muito, várias vezes. Quando morreu, tínhamos um almoço aprazado.
Como se passou a sua infância? Os estudos?
Somos cinco irmãos. Os pais são do Norte. A mãe é do Porto, o pai da Póvoa. O meu avô paterno era professor da Faculdade de Direito em Coimbra. A minha mãe vivia no Porto e veio estudar para Coimbra, todas as três irmãs iam estudar para fora do sítio onde estavam. Os meus pais foram colegas no curso de Direito em Coimbra, ambos foram bons alunos. Nasci no Porto, vivi em Coimbra até aos nove anos. Tínhamos uma casa com jardim, meteram-nos em Lisboa num andar, foi complicado. Portávamo-nos mal, fazíamos barulho aos vizinhos. Estudar e fazer as coisas de uma maneira exigente era normal lá em casa. Para nós as três, era normal fazer um curso superior. Temos todas muito orgulho por a nossa bisavó ter sido médica. O meu trisavô teve quatro filhas formadas: três médicas e uma engenheira. A exigência com que éramos tratados fazia com que nenhum de nós achasse uma habilidade ter notas boas. Era um ambiente muito normal. A minha mãe achava que nos devíamos deitar cedo e fazer os estudos a horas normais. Fazia-nos visitas nocturnas de lanterna, não achávamos graça nenhuma, nós de luz acesa, a chegada dela não era nada agradável.
Como concilia a carreira política com a vida pessoal?
Isso é como todas as mulheres que têm uma vida de trabalho e familiar. Todos os domínios são importantes. Temos ansiedade de os conciliar. As mulheres vivem de uma maneira difícil a conciliação entre o trabalho e a família. Quando saí do Ministério da Saúde, lembro-me de supervisionar com mais atenção os banhos do meu filho.
Como vê a pouca participação das mulheres na nossa realidade?
Em Portugal, conseguimos fazer um percurso notável nos últimos 30 anos. Temos acesso à educação, ao emprego, ao controlo de fertilidade, à saúde. Mas há uma zona de intervenção política onde as coisas se mexem lentamente. As pessoas facilmente aceitam que a mulher esteja em qualquer lado, mas ainda não demos o passo da exigência de maior participação das mulheres. Há situações de recuos. Há as pessoas que acham normal que sejam só homens a desempenhar cargos. Ainda ontem, duas listas votadas para um órgão na Assembleia da República só ti-nham homens. Não há uma atitude, uma reacção contra isso, as pessoas não pensam antes das votações. Nas cerimónias do 10 de Junho passado, o palco tinha só homens e eu. Porque o Presidente da Assembleia da República não pôde ir. Também na iniciativa dos empresários [Compromisso Portugal], a fotografia publicada nos jornais era só de homens, aquele era o retrato do país que não é moderno. Na política, é desastroso o que se passa. A primeira diversificação necessária é entre homens e mulheres. Um dos problemas para as mu-lheres é a irregularidade dos horários. Das 8 às 10 horas poucas coisas acontecem. Esta Casa só começa a funcionar às horas a que fecham os infantários. Muitas coisas são resolvidas nos ambientes informais, em circunstâncias inacessíveis às mulheres. Há uma reunião, os homens vão todos jantar ou vão para o café, e aí decidem o que é importante. Com muitas mulheres nos sítios de decisão as coisas alteram-se.
Acredita que esta situação vá mudar?
A situação (20 por cento de deputadas mulheres) resolve-se com quotas de mulheres na Assembleia da República. No princípio era contra as quotas. Recentemente, em colegas minhas mais novas vejo que não há adesão intelectual, há simpatia, mas percebe-se que se admitem quotas. Porque as quotas funcionam noutras coisas. Funcionam para grupos diferentes dentro dos partidos, e há quotas informais nas mais variadas áreas: equilíbrio territorial, equilíbrio de grupos ou de sensibilidades dentro dos partidos, inclusão de jovens. Todos os países democráticos sabem que com ou sem quotas não pode haver listas se o poder for exercido sem mulheres. Todos os mecanismos de conservação do poder funcionam, são eles que lá estão. E elas não participam nestes mecanismos informais.
Tem um desejo para o tempo presente?
Estamos numa fase difícil. Há uma falta muito grande de líderes para estas coisas. Toda a Europa precisa de grandes líderes. Tenho sempre esperança de que melhorem. Em 1985, quando da assinatura da adesão de Portugal às Comunidades Europeias, estavam Thatcher, Mitterrand, Kohl, era um escol de líderes. Faltam nomes que fiquem na História e façam hoje as coisas evoluírem. Nomes que dêem orientação, que definam valores, que consigam construir o mundo pós-guerra fazendo a paz. "


Texto:Leonor Xavier
Fotografia: Pedro Ferreira

Ebbe Merete Seidenfaden (1941-1980)




Ebbe Merete Seidenfaden era o seu verdadeiro nome, mas entrou nas nossas vidas pelo nome de Snu Abecassis, fez parte de uma das mais bonitas histórias de amor do Portugal do século XX.
Presto aqui a minha homenagem a essa grande senhora que foi Snu Abecassis.
Faço-o não pelas minhas palavras, mas pelas palavras da sua grande amiga Natália Correia:

"Um astro fugitivo te enleou

No que é dado à paixão cumprir-se em morte;

E algo espantosamente te levou

Cioso do que é frágil no mais forte.

Ó fúria de seres morto prematuro,

Sobre o abismo, extremamente vivo,

Jogando às cartas com o anjo escuro

A luz do teu relâmpago persuasivo.

Tinhas fome de quê? de quem? de Deus?

De amor seria, pois furacão de flores,

Passaste, atirando aos fariseus,

O escândalo gentil dos teus amores... "

Natália Correia, in Recordando o Amante Francisco Sá-Carneiro Em Memoria da Minha Amiga Snu, Junho de 1984.

Tuesday, March 21, 2006

Manuela Ferreira Leite



Na tentativa de homenagear pessoas vivas, vou começar a homenagear as minhas "idolos" nacionais, sendo que a primeira é normalmente uma pessoa polémica, mas posso dizer que é a mulher que mais admiro politicamente, gosto do seu carácter forte e decidido, e embora em tempos tenha sido contra algumas das suas ideias, como por exemplo a PGA (Prova Geral de Acesso), hoje em dia penso que foi uma idiotice ter acabado com ela (estando eu entre os idiotas que a contestaram).

Aqui fica a minha mais sentida homenagem a uma grande mulher: Manuela Ferreira Leite
Maria Manuela Dias Ferreira Leite, governante e parlamentar portuguesa, é filha de Carlos Eugénio Dias Ferreira e de Julieta de Carvalho e nasceu em Lisboa a 3 de Dezembro de 1940.
Licenciou-se em 1963 em Economia pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras com a média final de 16 valores. Obteve os prémios "ex-aequo" concedidos ao "aluno mais distinto do curso", ao "aluno mais classificado do curso de Economia" e ao "aluno mais classificado na cadeira de Política Ultramarina".
Iniciou o percurso governativo em
1990 como Secretária de Estado do Orçamento até 1991 seguindo-se o cargo de Secretária de Estado Adjunta e do Orçamento de onde cessou funções em 1993 para assumir a pasta da Educação, onde, como Ministra, mostrou firmeza em relação aos estudantes, faceta pela qual viria a ser sempre conhecida. Exonerou funções em 1995 quando o Partido Social Democrata (PSD) perdeu as eleições para o Partido Socialista (PS). Regressou à vida parlamentar, a qual já tinha suspendido entre 1991 e 1995 para assumir funções no Executivo. Durante o período de 1995 a 1999 presidiu à Comissão Parlamentar de Economia, Finanças e Plano da Assembleia da República. Em 2002, e após a vitória do PSD nas eleições legislativas antecipadas por força da demissão do anterior Primeiro-Ministro, António Guterres, regressa ao Governo chefiado por Durão Barroso onde encontra uma situação orçamental grave e dá a cara a uma série de decisões impopulares e pela sua competência e firmeza adquire a alcunha, numa alusão a Margaret Thatcher, de Dama de Ferro. Manteve-se no Governo até 2004, altura em que Durão Barroso pede a demissão para presidir à Comissão Europeia. Não concordando com a nova liderança do Partido e Primeiro-Ministro, Pedro Santana Lopes, afasta-se da vida política activa e regressa ao cargo no Banco de Portugal.

Wednesday, March 15, 2006

Brites de Almeida - A Padeira de Aljubarrota


“A Padeira de Aljubarrota”

“Brites de Almeida não foi uma mulher vulgar. Era feia, grande, com os cabelos crespos e muito, muito forte. Não se enquadrava nos típicos padrões femininos e tinha um comportamento masculino, o que se reflectiu nas profissões que teve ao longo da vida. Nasceu em Faro, de família pobre e humilde e em criança preferia mais vagabundear e andar à pancada que ajudar os pais na taberna de donde estes tiravam o sustento diário. Aos vinte anos ficou órfã, vendeu os poucos bens que herdou e meteu-se ao caminho, andando de lugar em lugar e convivendo com todo o tipo de gente. Aprendeu a manejar a espada e o pau com tal mestria que depressa alcançou fama de valente. Apesar da sua temível reputação houve um soldado que, encantado com as suas proezas, a procurou e lhe propôs casamento. Ela, que não estava interessada em perder a sua independência, impôs-lhe a condição de lutarem antes do casamento. Como resultado, o soldado ficou ferido de morte e Brites fugiu de barco para Castela com medo da justiça. Mas o destino quis que o barco fosse capturado por piratas mouros e Brites foi vendida como escrava. Com a ajuda de dois outros escravos portugueses conseguiu fugir para Portugal numa embarcação que, apanhada por uma tempestade, veio dar à praia da Ericeira. Procurada ainda pela justiça, Brites cortou os cabelos, disfarçou-se de homem e tornou-se almocreve. Um dia, cansada daquela vida, aceitou o trabalho de padeira em Aljubarrota e casou-se com um honesto lavrador..., provavelmente tão forte quanto ela.
O dia 14 de Agosto de 1385 amanheceu com os primeiros clamores da batalha de Aljubarrota e Brites não conseguiu resistir ao apelo da sua natureza. Pegou na primeira arma que achou e juntou-se ao exército português que naquele dia derrotou o invasor castelhano. Chegando a casa cansada mas satisfeita, despertou-a um estranho ruído: dentro do forno estavam sete castelhanos escondidos. Brites pegou na sua pá de padeira e matou-os logo ali. Tomada de zelo nacionalista, liderou um grupo de mulheres que perseguiram os fugitivos castelhanos que ainda se escondiam pelas redondezas. Conta a história que Brites acabou os seus dias em paz junto do seu lavrador mas a memória dos seus feitos heróicos ficou para sempre como símbolo da independência de Portugal. A pá foi religiosamente guardada como estandarte de Aljubarrota por muitos séculos, fazendo parte da procissão do 14 de Agosto.”
In “Lendas de Portugal”- Lendas do Distrito de Leiria

Thursday, March 09, 2006

Maria de Magdala


A primeira mulher a ser homenageada, neste mês dedicado a grandes mulheres é Maria de Magdala, ou Maria Madalena como é mais conhecida, é a primeira porque dois mil anos depois continua a ser despontar polémicas e só uma grande mulher consegue este feito.
É também a primeira por ter sido a mais injustiçada, é a primeira porque é um simbolo do feminino, é a primeira porque foi a escolhida por Cristo e lá diz o ditado : "Por trás de um grande homem está uma grande mulher", existem vários motivos para ser a primeira, nem todos conseguem ser transcritos para texto.
"Maria Madalena, que significa, provavelmente, "Maria de Magdala," uma localidade na costa ocidental do Lago de Tiberíades, é referida nos evangelhos (canónicos e apócrifos) como sendo uma seguidora de Jesus Cristo. Nada se sabe sobre ela, para além do que aparece nestes evangelhos. É festejada no dia 22 de Julho.

A tradição, sem qualquer fundamento bíblico, considera-a, muitas vezes, como a prostituta que, vivendo à mercê dos homens, pede perdão pelos seus pecados a Cristo. Este episódio é frequentemente identificado com o excerto do Evangelho de Lucas 7:36-50, ainda que aí não seja referido o nome da mulher em causa.

Alguns escritores contemporâneos, principalmente os autores do livro de 1982, que em Portugal se intitulou O Sangue de Cristo e o Santo Graal,(Holy Blood, Holy Grail) e Dan Brown no romance O Código Da Vinci (2003), defendem que:
Maria Madalena era, de facto, mulher de Jesus Cristo, e que esse facto foi escondido por revisionistas cristãos paulinos que teriam alterado os evangelhos.
Estes escritores basearam-se nos evangelhos, canónicos e apócrifos, além de escrituras gnósticas para fundamentarem as suas conclusões. Ainda que o Evangelho de Filipe designe Maria Madalena como "companheira de Cristo", o que parece indicar que fosse especialmente próxima de Jesus, não há nenhum documento antigo que refira abertamente que ela fosse sua esposa.
Um argumento a favor desta especulação refere-se ao facto de que o celibato era muito raro entre os judeus homens, da época de Jesus, sendo considerado, mesmo, como uma transgressão ao primeiro mitzvah (mandamento divino)— "Sede fecundos e multiplicai-vos". Isso seria considerado impensável para um adulto, ainda mais quando viajava pela Judeia pregando como rabi.
Pode-se, contudo, usar o contra-argumento de que haveria uma grande diversidade de correntes religiosas dentro do judaísmo, além de que o papel de rabi ainda não estava bem definido. João Baptista e os essénios eram celibatários. Paulo de Tarso era-o também, quando ainda se julgava que o cristianismo deveria ser uma religião destinada apenas ao povo judeu. Na verdade, só depois da destruição do Segundo Templo no ano 70 d. C. que o judaísmo rabínico se tornou a corrente dominante entre as comunidades judaicas.
Maria de Magdala é, sem dúvida, uma das presenças femininas de maior destaque nos evangelhos. A sua presença na crucificação de Jesus, ainda que de modo algum conclusiva, é, contudo, consonante com o papel de esposa em sofrimento e viúva desconsolada, ainda que fosse de esperar que Jesus a encomendasse a alguém, como fez a sua mãe (contra-argumento que poderá ser posto em causa se fizermos outra interpretação das palavras de Cristo durante a última ceia). Dada a falta de provas escritas, dessa época, ainda que muita gente goste de considerar a hipótese ou a defenda acerrimamente, a maior parte dos académicos não a leva a sério.
Tornou-se célebre, com a divulgação do livro já referido de Dan Brown, o argumento de que n'A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, a personagem que está à sua direita, com traços femininos, seja Maria Madalena e não João, como outros defendem. O facto de Jesus não envergar nenhum cálice (o Graal) poderá levar a interpretações que muitos consideram abusivas, como acreditar que Maria Madalena é, de facto, o "cálice sagrado" onde repousa o "sangue de Cristo" ou seja, que ela estaria, na altura, grávida de Jesus."

in "Wikipédia"

Digam o que quiserem o que é facto é que Cristo quando reencarnou a primeira pessoa a quem apareceu foi a Maria de Magdala, não foi à mãe nem tão pouco aos Apostolos, e isso no meu entender tem um grande significado.
Pena que o rumo da história tenha sido alterado, porque a nossa sociedade hoje seria bem diferente, muito melhor no meu entender.

Wednesday, March 01, 2006

O começo de uma nova temática

Foto: Alberto M.

Como o Dia Internacional da Mulher é comemorado dia 8 de Março, o Entre Mares e Planuras vai dedicar todo o mês à mulher, nomeadamente a mulheres que se distinguiram pelo seu carácter ou pelo seu pensamento inovador .
Aproveitem este espaço para homenagear as mulheres, que no vosso entender sejam dignas dessa homenagem, sejam elas, a vossa vizinha do lado, a senhora que vos lava a escada, a Margaret Thatcher ou a Madre Teresa de Calcutá...homenageiem mulheres que vos inspiram.
Ou então, enviem um email para entremareseplanuras@gmail.com, com o nome ou história da/das mulher/mulheres que desejam ver homenageadas.

Thursday, February 09, 2006

Soror Mariana

Foto: Mariana


Como pode um grande amor, moldar toda uma vida de sofrimento e dedicação ao mesmo, deixando até de viver, não no sentido biológico mas emocional?
Acabei de ler o livro “Mariana” de Katherine Vaz, baseado em factos verídicos da vida da Freira Mariana Alcoforado, de Beja, e nas cartas que esta escreveu ao seu apaixonado. Mariana viveu no século XVII, e iniciou a sua vida simultaneamente com a guerra da Independência de Portugal em relação a Espanha, mais não digo, aconselho-o a todos.
Confesso que me emocionou, chorei muitíssimo à medida que o número de páginas ia avançando, o espírito de Mariana era forte, rebelde, orgulhoso e decisivo, gostaria de conhecer mais sobre a sua vida.
As suas cartas traduzidas para várias línguas inspiraram escritores e artistas como Stendhal, Rodin, José Maria Rilke ou até Jean-Jacques Rosseau.
Quanto a mim fiquei bastante presa à história de Soror Mariana e desejo voltar a ler, mais e mais sobre este assunto. Um amor que não fica aquém do de Pedro e Inês.
Portugal está de facto recheado de grandes histórias de amor, se conhecerem mais… digam, vamos tornar este blog um espaço de divulgação literária, deixem as vossas sugestões, revelem os livros que vos inspiram para que todos possamos partilhar essas mesmas inspirações.

Sunday, February 05, 2006

Um Pequeno Aparte!!!

Foto : Luís Bomba



Normalmente este tipo de assunto não faz parte do leque por mim abordado neste blog, mas desta vez achei por bem abordar dois assuntos um positivo e outro negativo, o positivo é a declaração por parte das ministras da educação e cultura dos Ensinos Artísticos no Básico, felicito esta atitude e espero que seja realmente uma medida para avançar, o segundo a falta de tolerância que está a ocorrer, de parte a parte, por causa da história das caricaturas de Maomé, eu não concordo com a publicação dos cartoons, se por um lado temos a liberdade de expressão, por outro essa liberdade deixa de o ser quando ataca a liberdade dos outros, como é este caso, podemos brincar com muitas coisas desde que não ofenda as outras pessoas, embora a onda de violência que levantou acabou por aniquilar qualquer razão que a opinião pública lhes podia dar.
E perguntam vocês porque misturo estes dois assuntos, à partida sem ligação nenhuma, no mesmo post? A resposta está no post por mim colocado no dia 25 de Abril de 2005, dêem uma olhada e percebam porque eu acredito que estão os dois interligados.

Sunday, January 29, 2006

O manto branco que cobriu a Figueira



Quando acordei, hoje de manhã, olhei pela janela e nem queria acreditar, estava a nevar na Figueira da Foz.
A primeira e última vez que presenciei tal acontecimento andava ainda na quarta classe. Por isso a relevância este post.
Ficam aqui então algumas fotografias de como fica a cidade mais bonita de Portugal coberta de branco ( estas fotos pertencem ao portal www.figueira.net).
Espero que apreciem :



















Friday, January 27, 2006

Os 250 anos de Wolfgang Amadeus Mozart


Bem, não podia deixar de comemorar o 250º aniversário de Mozart, embora não seja grande fã de toda a sua obra, existem algumas do meu agrado principalmente no que concerne à obra operática.
Como 250 anos, é muito ano e principalmente muito tempo para permanecer presente no quotidiano de muita gente, é um feito apenas alcançado por alguns.
Aqui fica a minha singela homenagem ao menino-prodígio da Música Clássica (embora não seja o único como muitos pensam, não é Chopin?).
Para não vos massar com vida e obra deixo-vos antes uns links de sites que já proporcionam essa informação:

www.infonet.com.br/mozart/

The Mozart Project

w3.rz-berlin.mpg.de/cmp/mozart.html

Parabéns ao menino Mozart, porque embora faça 250 anos, hoje é um bebé.
Comemorem o seu aniversário ouvindo muita música!
E se tiverem crianças pequenas ponham-nas a ouvir Mozart porque está provado que faz bem para o desenvolvimento intelectual dos mais pequenos.
E aproveitem para preparar o ouvido, porque vem ai um ano repletinho de Mozart. Daqui a um ano já toda a gente conhece toda a vida e obra dele, porque isto quando concerne a Homenagens é até fartar.

Monday, January 23, 2006

Devaneios Literários



Naquele de Inverno, bem gelado, sentado junto ao lago que o viu crescer, pensava em como tinha chegado àquele estado, parecia que enfrentava um ponto sem retorno na sua vida, queria voltar a ter a confiança no que fazia e do que sentia.
Tinha chegado aquele dia em que não queria ir mais trabalhar. O que antigamente o animava, agora aborrecia-o de morte, não lhe apetecia levantar da cama para ir trabalhar e tinha chegado à conclusão que mudar de emprego tinha deixado de ser uma hipótese para passar a ser uma prioridade.
Mas fazer o quê, toda a sua vida pensara em ser publicitário, e agora a lufa lufa dos deadlines e das ideias criativas esgotara-o, ao ponto de ter deixado de gostar do que fazia.
O que poderia fazer então? Não conseguia encontrar qualquer resposta.
Não conseguia encontrar a Catarina, com certeza ela iria querer resposta para o que o intrigava, e neste momento não conseguia falar sobre este assunto.

A Catarina foi sempre uma mulher bastante decidida e não sei se iria ver com bons olhos toda esta minha indecisão, por outro lado se lhe contasse podia ser que ela me ajudasse… mas o que lhe digo? Que estou farto…quero mudar…mas para onde, se nem o que quero fazer lhe posso dizer?
Podia tirar umas férias até esclarecer este assunto, há dois anos que tenho as férias em atraso, posso aproveitar agora, quem sabe quando voltar venho mais disposto e até apreciar os desafios que me forem propostos?
Bem, as férias seriam uma boa solução, mas teria também de pensar na Rita e no Pedro afinal há dois anos que não passo umas férias com os miúdos.
Quando chegou a casa o almoço já estava quase pronto, tentou esquecer os seus problemas enquanto punha a mesa.
- Então que tal estava o lago? – Perguntou-lhe a mulher.
- Estava bastante calmo, nem sequer um pescador ou um barco!
- Deve ser por ser dia de semana – retorquiu ela.
-É capaz. Olha estava aqui a pensar, quando é que os miúdos têm férias?
- Na Páscoa, porquê?
- Estava a pensar em tirar umas férias e tu quando tens?
- Estava a pensar em tirar uns dias no Verão, mas se tu tirares agora, posso ver se consigo uns diazitos na mesma altura.
- Seria perfeito.
- Mas afinal porque queres tirar férias, logo tu e nesta altura do ano? Não é que não te faça falta, muito pelo contrário…os miúdos iam adorar….
- Estou a precisar de um tempo, as coisas no trabalho não andam grande coisa, não ando a gostar do que faço e penso que umas férias me fariam bem, pode ser cansaço e saturação.
- Se calhar…ouve lá…
-Diz…
- Não, se calhar é asneira…
-Não, diz.
- Pode ser uma tontice, mas não te sentirias mais motivado se criasses uma agência tua? Há tanto tempo que trabalhas ali sem perspectivas de promoção, porque não teres o teu próprio projecto?
- É algo a pensar, se calhar tens razão, se calhar é isso que me está a provocar esta angústia toda. E os miúdos?
- Que têm?
- Começar agora um projecto e se corre mal? Eles estão ainda em idade escolar… é arriscado…
- Pode ser mas o meu salário é estável e dá para qualquer emergência, porque não experimentas? Tens os contactos necessários para uma boa carteira de clientes e ainda podes ir buscar os melhores profissionais para trabalhar contigo.
- Tens razão, vou começar a pensar a sério nisso. De qualquer forma podíamos tirar uns dias de férias o que achas?
- Sim, podemos.
Esta Catarina, eu cheio de problemas, sem saber como abordar o assunto, sem saber qual a reacção que iria ter, e ela não só me apoia como me instiga a começar de novo.
Bem, agora resta-me por as mãos à obra e começar a delinear toda a estratégia de construção de um novo sonho, parece que rejuvenesci uns 15 anos.
Por vezes os nossos maiores receios tornam-se os nossos propulsores, mesmo quando pensamos que eles são devidamente fundados.

Wednesday, January 18, 2006

A Praia


As ondas batem levemente na praia, levanto-me e dou uns passos mesmo juntinho à linha de água para depois vê-la lentamente encher as minhas pisadas.
O cheiro da maresia em conjunto com o som das gaivotas, lembram-me tempos passados, épocas cheias de alegria e contentamento.
Começo a correr, corro sem rumo, corro junto à água, que me salpica as calças de ganga, não sei para onde vou, mas neste momento não me interessa.
Lembrei-me do teu olhar, lembrei-me da tua voz, já não o vejo ou a ouço há muitos anos, mas não sei porquê, regressaram-me agora à memória, talvez porque fosse esta a nossa praia, muitos anos antes de ter parques infantis ou até mesmo campos de jogos, tu terias gostado, seguramente, da rampa para os skates.
O meu coração bate sobressaltado pela tua memória, apetecia-me falar contigo, mas sei que isso é impossível.
Demorei alguns anos até conseguir suportar a tua ausência, mas agora já não dói tanto, consigo conviver amigavelmente com a tua memória, sem me sentir magoada por ela, ou sem que a saudade seja avassaladora e me derrube.
Faz doze anos daqui a uns meses que não te vejo, no entanto continua a parecer ontem.
Olhando em volta, pergunto-me se irias reconhecer a nossa praia…incrivelmente está mais comprida, mas também está mais alegre, mais cuidada, olhando para trás, e comparando, naquela altura parecia abandonada.
A praia, as conchas, as algas, o vento, o som do mar, tudo me relembra a tua imagem como se estivesse elevada sobre o horizonte… como seria tudo se ainda pudesses estar aqui?
Até amanhã, hoje vou sonhar melhor!

A Música de Nuno Malo

A Música, que estão a ouvir, é do compositor português Nuno Malo e poderão encontrá-la em www.nunomalo.com.
Dêem uma espreitadela, eu adoro o trabalho dele e recomendo-o a toda a gente.
E é sempre agradável saber que, um compositor português, tão novo como o Nuno, tem já o extenso curriculum que ele tem. E assim sendo, quero ver como o trabalho dele vai evoluir com os anos.

Monday, January 09, 2006

A Bela Catalunha





Catalunha Triunfante!
Tornará a ser rica e plena!





A todos aqueles que fizeram da minha estadia na Catalunya memorável, muito obrigada!
À Noemi, obrigada por me teres mostrado o teu país, as suas tradições, a cultura, a música, a gastronomia, mas sobretudo pela amizade. O meu obrigada também à tua familia.
A Catalunha ficou para sempre marcada no meu coração, espero voltar brevemente, desta vez a falar já um pouquinho o Catalão!
Aos portugueses recomendo uma visita à Catalunha, em todo o seu esplendor, aproveitem Barcelona, mas conheçam a beleza do Interior, eu fiquei fã.

Thursday, December 22, 2005

Um presente de Natal



Deixo-vos aqui uma árvore de Natal de sonho, a do Rockefeller Center. em Nova York, gostava de vos deixar uma portuguesa,mas infelizmente só temos uma, grande árvore de Natal, como é de ferro ... não gosto.


" Sarasate"*

Há uma nota que vibra e voa para longe
E uma outra - a última -flui
No seu encalço - e estremece - escapa-se.
Oh, se eu pudesse chorar,
Como uma criança pelo seu brinquedo.

Ainda sentado - o júbilo torna-se estridor -
Os meus sentidos demoram-se a beber
O ar de um mundo ainda longínquo,
Um mundo que a minha inocente infância
Logo abraça com saudade.

O ar de um mundo invulgar,
Que noites a fio, em ímpeto ardente
Me mantém febril e preso no seu encanto -
A terra dos apátridas,
Este reino da arte, vermelho como o Sol

Herman Hesse
(6 de Dezembro de 1897)

* Pablo Martín Melitón de Sarasate y Navascuéz , violinista e compositor, nasceu em Pamplona a
10 de Março de 1844 morre em Biarritz em 1908

Wednesday, December 21, 2005

O Último Dia de Outono

Foto: Ilidio Pires


Deste-me a mão, para me ajudar a subir aquela rocha mais íngreme, mas valeu a pena a paisagem é de outro mundo, o Douro no Outono é algo digno de um filme.
Deixei-me ficar, juntei o meu corpo com o teu e fiquei ali, quieta, a contemplar a paisagem, em silêncio, escutando somente o ruído do rio, lá em baixo, e som do vento por entre as parreiras.
Pensava, em todo o caminho que percorrermos, no curto espaço de um mês, nunca pensei estar aqui, quando nos esbarramos literalmente na porta da livraria, trocámos umas pastas sem querer e tivemos que voltar a cruzar-nos para desfazer o erro, se não soubesse mais que isso, pensava que estávamos no centro de um enredo cinematográfico.
Convidaste-me para ir tomar café, e eu respondi-te que não bebia café, continuaste, sempre no bom caminho, e perguntaste-me se queria ir beber um chocolate quente então…e eu respondi-te que não bebia chocolate quente…e tu perguntas-te me, com razão, se eu ingeria algum tipo de bebidas, ao que eu te respondi secamente, um chá pode ser.
E foi a partir desse chá que tudo começou, depois fomos jantar, seguiu-se o teatro, o cinema e, de repente, a minha vida começou a habituar-se à tua companhia.
Começaram os longos passeios no parque, as confidências literárias, as gargalhadas junto ao mar, os passeios de bicicleta, e num espaço de duas semanas a minha vida tornou-se completamente siamesa da tua, o que me assustou, na realidade ainda me assusta.
Não gosto de companhia, nunca gostei, sempre fui e quis ser orgulhosamente só, demorei a compreender o que se estava a passar comigo. Depois percebi, a tua solidão encaixava-se completamente na minha solidão, eu na realidade continuava a mesma, apenas compartilhava um mesmo estado e senti-me bem com isso.
E aqui estou eu, aconchegada pelos teus braços a observar um rio que corre sempre na mesma direcção, sem se perguntar porquê, e se calhar nós devíamos fazer o mesmo, afinal de contas, mais cedo ou mais tarde desagua mos todos no mar.

Tuesday, December 20, 2005

Um pequeno esboço da Cultura Maori



Tive o meu primeiro contacto, com a cultura Maori, em Agosto de 2000, através de um belíssimo cd de Kiri Te Kanawa chamado “Maori Songs”, apaixonei-me pela sonoridade produzida por este povo, desde então tenho dado alguma atenção a esta cultura posicionada nos nossos antípodas e entre nós tão desconhecida, excepção feita aos amantes de Rugby que têm a referência do Haka (canto de guerra) cantado no início de cada jogo da selecção neo-zelandesa.

Deixo-vos, então aqui, alguns traços da cultura Maori que espero que vos encante tanto como a mim.


Com origem na Mongólia, em 1200 A.C. a população da Nova Guiné começou a sua peregrinação pelas ilhas do Pacífico dando origem a dois povos os Maori e os Moriori.
Os ascendentes dos Maori, sediaram-se na “Aotearoa” – Terra da Grande Nuvem Branca (Nova Zelândia), o que lhes permitiu manter e aumentar a divisão do trabalho, criando uma casta guerreira que se envolvia regularmente em guerras inter-tribais.

Em 1835, novecentos Maori, rumaram para as ilhas Chatam, a 800 km de “Aotearoa”, ilhas então habitadas pelos Moriori, que após alguma resistência foram subjugados e escravizados pelos primeiros.
Mas os Maori espalharam-se por toda a Polinésia, existem inclusivamente semelhanças nos hábitos, costumes e alguns vocábulos do Hawaii às Marquesas, Polinésia Francesa e Ilhas Cook, fruto dessa migração.

Os primeiros europeus chegam a ilha em 1820, mas só em 1840, após diversas lutas e guerras entre brancos e Maori, foi assinado o Tratado de Waitangi, celebrando a paz entre os dois povos. Após o tratado o povo Maori, ficou restrito a áreas isoladas por sua própria vontade, facto que apenas muda já perto do início do século XX.


Maoritanga - Cultura Maori

Existem várias lendas e histórias, relativas às tradições do povo Maori, como por exemplo a da criação do mundo: Panginui, o pai céu, e Papawanuku, a mãe terra, tiveram um filho Tane, criador de todas as criaturas. Outra lenda diz que os Maori são descendentes de Deus e os seus ancestrais partiram de Hawaikii em canoas e cruzaram o Oceano Pacifico – Te Mona Nui a Kiwa.

A Arte Maori está intimamente associada à paisagem e ambiente de “Aotearoa”

A dança tem um papel fulcral para o jovem guerreiro, visto que é um ponto de partida para a luta contra inimigos imaginários. Trata-se de uma dança, onde são preponderantes factores como a elasticidade e o manejamento de clavas, acrescidas da tradicional careta, em que expõem toda a língua, que tem como intenção intimidar o inimigo.

A Escultura Maori pode ser efectuada em Madeira, Osso e “Pounamu”, conta a história da tribo e dos seus antepassados mitológicos, mas que também tem uma utilidade prática como fazer waka (canoas), armas e instrumentos musicais.

A Escultura em Osso (tradicionalmente em Osso de Baleia, embora hoje em dia seja mais comum a utilização do Osso de Vaca) é outra forma importante da Arte Maori, utilizada como adorno, toma várias formas com diferentes significados:

- Hei Matau (anzol) – esta forma representa o mito de Maui. Maui pescava na Ilha do Norte usando um anzol feito com o queixo da sua avó, este anzol representa, desde então, o poder e influência dos antepassados. O Hei Matau é considerado um talismã que dá boa sorte e protecção durante as viagens.

- Koru – o Koru significa vida nova e regeneração, mas também eternidade e harmonia entre os povos.

- Manaia – este tipo de escultura representa os seres míticos com o mesmo nome, estes seres tem corpo humano e cabeça de pássaro. São considerados guardiões contra o mal.

- Tiki – baseados em figuras mitológicas.

A Escultura Pounamu (em Jade ou Pedra Verde) é extremamente difícil de esculpir, tendo por isso enorme valor entre os Maori, as suas formas mais comuns são jóias e armas.
As esculturas Pounamu herdaram as suas próprias histórias ao longo do tempo, e são conhecidas como Taonga (objectos acarinhados).




A diversidade cultural Maori encontra-se bastante presente na sociedade Neo-Zelandesa, actualmente, ao contrário do que acontece com os aborígenes na Austrália
Esta cultura tem um peso em quase todos os quadrantes de actividade, mas a maior evolução foi no sector da educação com um aumento bastante significativo de população Maori que frequenta a Universidade.
A Língua Maori, apesar de ser só usada em cerimónias tribais, é uma língua oficial juntamente com o Inglês.


Fica aqui uma pequena introdução a cultura Maori, num próximo post tentarei fazer uma aproximação a música Maori. Espero que seja um tema do vosso agrado.

Friday, December 16, 2005

Figueira da Foz por Cunha Rocha




Fica aqui o retrato da minha cidade preferida, pelo pincel de um pintor cujo trabalho adoro, Cunha Rocha.

Vinicius Moraes

O meu poema preferido de Vinicius de Moraes


Soneto do amor total


"Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.


E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude. "



Confesso que não entendo o que leva o cérebro humano a tal entrega, as palavras são muito fortes e sentidas, adoro este poema, mas esta força de sentimento ultrapassa-me.

Wednesday, December 07, 2005

Compositor Português ganha prémio Internacional de Composição

O compositor português, João Pedro Oliveira, está de parabéns ao ter vencido ,o Concurso Internacional de Música Nova de Praga, na categoria de obras para instrumento e sons electroacústicos, com “A Escada Estreita” para Flauta e Sons Electroacústicos escrita em 1999.
O compositor, ganhou também, o segundo prémio com “Time Spell” no Concurso Internacional de Música Electroacústica de São Paulo. A obra, escrita em 2003, para clarinete e sons acústicos em seis canais, irá ser editada em CD como prémio resultante do Concurso.
Igualmente de parabéns está a eslovaca Petra Bachratá, de momento a residir em Portugal, pelo primeiro prémio no Concurso Internacional de Praga, com “Nunataq”, na categoria de electroacústica pura, esta obra faz parte do projecto de Doutoramento da eslovaca na Universidade de Aveiro.

Thursday, November 17, 2005

Casa do Passal - Aristides Sousa Mendes

Através de um comentário ao post anterior, fui tentar descobrir a realidade da Casa do Passal e deparei- me com um triste cenário, mais um marco da nossa história está prestes a desaparecer diante dos nossos olhos, sem que ninguém faça nada para impedir.
Não vos vou relatar os factos da vida de Aristites Sousa Mendes, até porque, descobri que já existem diversos "blog" a abordar esse assunto.
Mas pergunto-me se em vez de bustos, concertos de homenagem, nomes de rua,etc, se o melhor tributo a este Homem não seria restaurar a casa que ele construiu para albergar a sua enorme familia ( teve 14 filhos) e familias inteiras de Judeus, cuja vida ajudou a salvar.
Não deveria aquela bonita casa ser considerado um monumento do Anti-Holocausto, ou até mesmo Património Histórico da Humanidade?
Aristide Sousa Mendes morreu na miséria apesar da sua infinita generosidade, não seria altura de alguém a retribuir preservando a sua memória, ou até mesmo usando a Casa do Passal como um Museu, que contasse esta magnifica história de coragem às futuras gerações.
Com tantos Batmans e Superhomens a povoar o imaginário infantil seria bem melhor que os substituissem por herois de verdade.

Sites e Blogs relacionados:

www.ipv.pt/millenium25/26_16htm
www.vidaslusofonas.pt/sousa_mendes.htm
www.sopadenabos.blogspot.com
www.sousamendes.blogspot.com
www.antoniopovinho.blogspot.com/2005/10/cabanas-de-viriato-e-casa-do-passal.html


MT

Tuesday, November 15, 2005

Uma Frase Bonita

Peço desde já desculpas, a Sérgio Azevedo, mas vou utilizar uma frase que vi no seu blog, no artigo:""A música em tempos de cólera" - discurso feito no concerto em homenagem a Aristides de Sousa Mendes "

"Nenhum homem é uma ILHA isolada
cada homem é uma partícula do CONTINENTE,
uma parte da TERRA se um TORRÃO é arrastado para o MAR,
a EUROPA fica diminuída,
como se fosse um PROMONTÓRIO,
como se fosse a CASA dos teus AMIGOS ou a TUA PRÓPRIA,
a MORTE de qualquer homem diminui-me,
porque sou parte do GÉNERO HUMANO.
E por isso não perguntes porquem os SINOS dobram
eles dobram por ti."

John Donne


Depois disto, nada mais a para dizer, as próprias palavras sentem-se envergonhadas.

MT

Wednesday, November 09, 2005

Cultura Galaico-Portuguesa III

Eventos Comuns


Primavera

A Primavera é a estación do ano en que a Natureza esperta e na que se inician
todos os procesos vitais.

O carnaval é un elemento esencial do patrimonio
inmaterial, con características comúns que o tornan
único e singular no ámbito etnográfico.

Os Maios reflicten a importancia da botánica
popular, e levan asociados importantes elementos
inmateriais como coplas e cantigas.

O contacto de galegos e portugueses cun medio
natural
forte propicia unha visón panteísta da
natureza. A institución do monte comunal, por
exemplo, reflicte un aproveitamento colectivo dos
recursos naturais, o mesmo que acontece nas
comunidades pescadoras.

As Cocas de vilas galegas e portuguesas son un bo
exemplo de manifestación común idéntica, asociada
a un rico patrimonio inmaterial de Mitos e Lendas
populares.

Nas artes da pesca obsérvase un importante
coñecemento do medio natural e dos seres vivos
marítimos.

O traballo da muller, presente en todas as
actividades tradicionais, ten un gran destaque no
marisqueo ou na apaña do argazo. Símbolos como o
da cuncha xacobea ou os búzios son característicos
do noso imaxinario colectivo.

A lamprea constitue un exemplo dun produto
natural específico desta rexión, con formas
culinarias e gastronómicas que realzan a identidade
común.

Verão

No verán prodúcese o momento culminante do ciclo solar e tamén, polo tanto,
englóbanse nel todas as manifestacións de carácter festivo, lúdico e de lecer.

A festa de San Xoán é unha celebración ligada
directamente ao ciclo solar cunha forte
implantación no imaxinario colectivo e uns
interesantes compoñentes de botánica tradicional.

As romarías e as procesións marítimas ilustran as
intensas relacións marítimas presentes desde
sempre entre ambos pobos. A toponímia marítimocosteira
é un elemento importante do acervo
cultural inmaterial.

A variada tipoloxía de embarcacións tradicionais
ilustran as semellanzas e a excelencia técnica das
formas de construcción e navegación tradicionais,
con importantes elementos inmateriais como a
nomenclatura dos compoñentes e a simboloxía
asociada, por exemplo, coas marcas de construtor
ou marcas poveiras.

Tanto no mundo rural como no mundo urbano
prodúcese unha forte participación popular nestas
formas comunitarias de diversión, lecer e
relixiosidade tradicional, cunha forte carga
identitaria asociada co poboamento disperso
agrupado en freguesias ou parroquias de orixe
precristiá.

A música tradicional traduce unha excelencia nos
oficios, tanto no propio dos músicos como no dos
construtores de instrumentos tradicionais, co orixe
no fondo dos tempos.

Directamente asociadas coa música están as danzas
propias que constitúen unha marca de identidade
colectiva que permanece en moitos lugares do
mundo con presenza da emigración galegoportuguesa.
Cada danza presenta, á súa vez,
variadas e interesantes características locais.
Denominadas tamén Cantares ao Desafio,
Despiques ou Desgarradas, son un elemento
fundamental en perigo de desaparición inminente
en Galiza. Maniféstase nelas a retórica popular, a
ironía ou "retranca", con raíces situadas nas propias
cantigas de escarnio e maldizer dos trobadores e
xograres medievais.

Outono

Na estación do Outono prodúcese a recolla dos produtos ofrecidos pola Nai
Natureza, actividades nas cales se produce un rico e variado patrimonio de
carácter inmaterial.

A vendima ou os lagares de aceite, son exemplos
destes eventos colectivos, asociados a múltiples
espresións culturais.

As transformacións secundarias, como a destilación
dos bagazos
, fomentan a transmisión oral, asociada
con formas de maxia e crenzas, da que son exemplo
os esconxuros da queimada.

O liño é un exemplo de cultivo tradicional en perigo
de desaparición que se pretende revitalizar asociado
coas modernas tecnoloxías nun xeito de
desenvolvemento sustentábel.

O millo, cultivo de introdución tardía, é un exemplo
da capacidade de adaptación ás mudanzas e a
incorporación nestes de novos elementos
patrimoniais , como as esfolladas ou os seráns.

A castaña, produto natural característico da rexión,
produce manifestacións culturais comúns e propias
como é o caso do magosto.

O carro de bois, elemento de transporte terrestre
por excelencia, incorpora oficios como o do
construtor e o de arrieiro, interesante nomenclatura
propia e os coñecementos propios do cuidado dos
animais.

Inverno

O inverno é a estación final do ciclo anual, na que se engloban as
transformacións finais dos produtos de orixe natural.

O tear do liño e os bordados son exemplos da
importancia e excelencia do traballo da muller.

Os encaixes ou rendas de bilros constitúen mostras
da comunidade cultural existente, que xa se
converteu nun intenso proceso de transmisións
patrimonial ás xeracións máis novas.

O traxe tradicional constitúe un elemento de
excepcional elaboración e requinte, cunha variada e
rica simboloxía nas formas e cores e nos
ornamentos, produto dunha tradición que data da
época castrexa.

Artesanía popular maniféstase a enorme
polivalencia do mundo rural tradicional, ligado a
unha grande auto-suficiencia.

Os múltiples e variados ofícios asociados con
produtos naturais ofrecen a excelencia das súas
realizacións e o patrimonio oral das linguas propias
ou falas gremiais.

In:www.opatrimonio.org

Cultura Galaico-Portuguesa II


Cultura Común

"Esta candidatura abranxe o conxunto do patrimonio cultural común a Galiza e a Portugal. Unha cultura común que asenta as súas raízes na prehistoria e que se mantén aínda viva por enriba das fronteiras entre os dous países que presentan esta candidatura, Portugal e España.
A cultura tradicional galego-portuguesa presenta unha unidade e unhas semellanzas que evidencian que a cultura común mantivo unha identificación coa comunidade obstinadamente fiel ao pasado e que debido ás rápidas mudanzas sociais corre perigo de desaparecer.
Este patrimonio inmaterial ten a súa orixe na rexión denominada "Gallaecia" a través dos romanos, e posteriores eventos históricos fan que teña unha intensa presenza en todo o territorio do país que é actualmente Portugal, así como noutras partes do mundo debido a fenómenos de colonización e emigración.
Onde máis claramente se visibilizan os elementos do patrimonio inmaterial galego-portugués é nas distintas fases do ciclo anual, representadas de maneira simbólica polas catro estacións do ano. Sen esquecer que manifestacións orais como a lingua, os cantares, os oficios, a música, as danzas e o universo festivo e ritual teñen unha presenza constante nas dúas comunidades ao longo do ano enteiro.
Esta cultura común mantén formas de excelencia que abarcan boa parte das manifestacións profundamente asentadas na poboación e no territorio, como a existencia de actividades de tipo comunitario ligadas aos montes, a gandería ou a prácticas agrarias ou marítimas."
In:www.opatrimonio.or

Cultura Galaico-Portuguesa I

História Comum



"Do ponto de vista histórico estas terras do Noroeste Peninsular possuíram traços de cultura comum durante milénios. Assim, em quase toda a área geográfica estendeu-se a cultura megalítica no terceiro milénio antes de Cristo, que foi seguida pela chamada cultura do vaso campaniforme, a qual pressupõe o começo da metalurgia do ouro e cobre e um limiar para as influências do bronze mediterrâneo e atlântico ao longo do segundo milénio a. de C. e começos do primeiro.
Por outro lado o noroeste peninsular é uma região onde o céltico, pelas razões de mútua apropriação anteriormente apresentadas, deixa de ser o específico céltico, comum a outras regiões, para ser uma outra cultura muito própria, elemento analítico para a compreensão das suas expressões de organização social, processos rituais, mundo simbólico e mesmo de cultura material, de que os castros são exemplo acabado.
Conhecem-se restos de mais de cinco mil, alguns escavados, como Carvalhelhos, Briteiros e Sobroso em Portugal, ou Sta. Trega, Baroña, Castromao e Viladonga, na Galiza. Esta cultura, própria de povos chamados galaicos pelos escritores clássicos, é fruto de influências céltico-indo-europeias e também mediterrâneas, que se somaram ao substracto local.
Quando se refere o mundo simbólico, a marca do mundo céltico é normalmente invocada. No entanto, obsessão etnogenética da maior parte dos estudos que referem os celtas como uma unidade identitária, explicativa da cultura do noroeste peninsular, se num primeiro momento sobrevalorizou esta referencia para legitimar uma uniformidade na cultura desta região, num segundo, provocou uma forte critica e encarniçada oposição de grande parte da comunidade científica.
Para além das questões científicas, já de si polémicas, outras, como as políticas, deram azo a interpretações parciais nacionalistas, como o caso do Estado Novo em Portugal e do Governo Franquista em Espanha, que prejudicaram uma abordagem serena da questão.
Antes de qualquer formulação teórica importa entender o que queremos afirmar por céltico e por "celtas", pois talvez os pressupostos tenham inviabilizado aproximações científicas ao problema.
Qualquer aproximação ao estudo da questão celta no noroeste peninsular deve ultrapassar a dimensão arqueológica ou até a linguística, para ser feita através de uma complexidade de campos de análise que, cremos, define a especificidade da cultura desta região. A celticidade do noroeste peninsular faz-se com a prevalência de mútuas interferências provocadas pelo contacto de um substrato proto-celta com os novos grupos que aqui chegaram, sendo que se inicia assim uma mútua apropriação cultural que caracteriza a diversidade e complexidade da realidade celta, tanto a nível geográfico como cronológico.
Para alem de qualquer polémica, é indesmentível a prevalência das componentes célticas na língua, seja qual for o nível e o momento da relação entre a língua lusitana e a celta, o que configura uma relativa identidade linguística nos territórios da antiga Gallaecia.
Mas mais do que o dado linguístico, de si próprio importante, foi a confluência de povos e de culturas que se deixou plasmar por um padrão de residência e por uma organização social impostos pelas limitações económicas e ecológicas da região.
É a este conjunto de particularidades que se pode atribuir uma identidade própria, uma cultura, que os romanos reconheceram numa Gallaecia pluri-étnica, variada nas línguas e nos povos, mas unitária como território culturalmente identificado.Esta Gallaecia criada pelos romanos, abrangia as terras da Galiza, do Norte de Portugal, das Astúrias e Leão, contando com cidades como Lucus Augusti (Lugo) na actual Galiza, Brácara Augusta (Braga) no Norte de Portugal, e Astúrica Augusta (Astorga) em Leão.
A influência da administração, da língua e da religião transmitida pelos romanos, assim como novas técnicas de trabalho agrário, foi fundamental, também aqui.
A pegada de Roma fizera-se sentir em diversas manifestações culturais que chegaram até tempos recentes, entre as quais se podem destacar o começo duma cristianização do Noroeste, com pontuais peculiaridades, como o movimento priscilianista nos séculos IV-V, e uma lenta latinização que desembocará, com o passar do tempo, na aparição de línguas neo-latinas entre as quais surge a língua galaico-portuguesa medieval.
Contudo, o certo é que esta influência, bem como a dos Suevos (com capital nesta região) e a dos Visigodos, pouco alterou o mundo construído por povos pre-indo-europeus e indo-europeus, Celtas e Iberos, e readaptado pela cultura da alta Idade Media.
Numa região com tradicionais dificuldades de se organizar à volta de fortes estruturas urbanas, e onde a prevalência de economia agrária, apesar de não encontrar muitos espaços de excelência para se desenvolver, criou comunidades que tiveram que desenvolver uma relação especial com a natureza para negociar a sua sobrevivência, onde a economia agro-pastoril predominou e a exploração dos recursos marítimos foi sempre uma alternativa, desde tempos imemoriais, como demonstram os desperdícios alimentares de alguns castros.
A desorganização do império romano no seu declínio, as constantes quezílias durante a ocupação sueva e visigótica e a nunca consolidada ocupação muçulmana -região considerada pelos berberes pobre e sem interesse de tal forma que abandonaram as suas posições fortificadas e nunca mais as ocuparam- fizeram com que esta região do noroeste peninsular perdesse as relações com centros administrativos estáveis, e desse origem a comunidades rurais que privilegiaram os vínculos de solidariedade parental e vicinal, regressando a práticas arcaicas de subsistência.
São estas marcas de uma natureza difícil mas acolhedora e em luta constante com as aspirações dos humanos, de uma sociedade baseada em comunidades fortemente unidas por laços de parentesco e de vizinhança, de que os "conselhos" transmontanos são testemunho, desconhecendo a autoridade centralizadora e desconfiada do espaço urbano, que definem a cultura desta região e que se espelham na sua tradição oral.
Diferentemente do que aconteceu no centro e sul da Península, aqui sobreviveu, no século VIII e seguintes, uma cultura romano-cristã que permitiu a um investigador e pensador galego, Vicente Risco, definir o homem galaico como um homo infimae latinitatis.
Os vínculos com a Europa cristã reforçaram-se, também, com a "invenção" do sepulcro do Apóstolo Santiago, em Compostela a partir de começos do século IX, fenómeno que perdura nos séculos seguintes e que implica uma estreita relação com outros povos europeus situados além dos Pirinéus, o que reflectirá em lendas da tradição oral, nomeadamente nos romances.
Podemos, em geral, afirmar, que, apesar dos ligeiros matizes locais, a unidade cultural e política representada pela velha Gallaecia é um facto até ao século XII.
A partir desta data, contudo, começa uma lenta, mas contínua, divergência de base política entre as terras situadas ao Norte e ao Sul do Minho.Enquanto que a Galiza, quer dizer, a parte setentrional do conjunto, fica submetida à monarquia leonesacastelhana, Portugal constitui-se como reino independente, sob o monarca Afonso Henriques e os seus sucessores, produzindo-se, ainda por cima, uma deslocação dos centros de poder em direcção ao Sul, Coimbra e Lisboa, a partir dos quais irradiaram peculiaridades culturais geradoras de pequenas diferenças, por exemplo na língua, e, sobretudo, contribuindo para desenvolver sentimentos de dependência e de posse distintos.
Os dados anteriores permitem-nos estabelecer uma diferenciação entre a Galiza e o Norte de Portugal no que a dependências políticas se refere, assim como reconhecer que os dois territórios dependeram duma "cultura de Estado" diferente. Mas é preciso advertir que, até ao século XIX, tanto o estado português como o espanhol eram estados pre- ou proto-nacionais, fruto de concepções patrimoniais dos respectivos monarcas, e, portanto, não tenderam a criar uma uniformidade cultural nas camadas populares da população, formadas especialmente por camponeses, artesãos e marinheiros, o que facilitou a permanência de formas de cultura tradicional com grandes semelhanças nos dois lados do Minho e da raia seca das terras mais orientais.
Com posterioridade, a partir do século XIX avançado, a lenta implantação de estados nacional-liberais em Espanha e em Portugal provocou o aparecimento de políticas encaminhadas a consolidar um espaço nacional uniforme, como sucede noutras zonas da Europa. Mas deve ter-se em atenção que estes dois estados sofreram duma debilidade crónica que os impediu de consumarem, plenamente, os seus desejos de criar uma cidadania com cultura uniforme de estado.
As contingências da História, que se acabam de referir, fizeram com que o Noroeste Peninsular se caracterizasse por uma forte sociedade rural, de que as manifestações culturais são o seu espelho mais seguro.
A rica lírica galaico-portuguesa dos séculos XIII e XIV foi escrita numa língua cortesã comum, com base numa tradição popular de carácter oral, a autores galegos e portugueses mas, pouco a pouco, num longo processo que chega até aos nossos dias, os traços comuns convivirão com divergências, o que permite considerar o galego e o português como línguas muito próximas, mais diferenciáveis.
A literatura galaico-portuguesa encontra formas de erudição e lugar nas elites, mas é a Tradição Oral a máxima expressão do sentir e do agir desta região. Ela interpreta o mundo natural de onde nasce; ela expressa os sentimentos daqueles que nele labutam e nele se transcendem. E não é por acaso que nela subsistem ainda, enquanto linguagem do povo, traços comuns de língua dos dois lados da fronteira, como é o caso na Baixa Límia (Galiza) e em Castro Laboreiro (Portugal).
A deficiente escolarização favoreceu a conservação duma cultura de transmissão oral e de carácter muito local tanto no que se refere ao aproveitamento do meio natural como à organização social ou ao universo crencial-simbólico e criativo. Um brilhante grupo de arqueólogos, linguistas, literatos, historiadores e etnógrafos/folcloristas, com figuras como Teófilo Braga, Leite de Vasconcelos, Mantíns Sarmento, Coelho, Vieira Braga, J. Dias, etc. em Portugal, ou Manuel Murguía e os membros do Seminario de Estudos Galegos na Galiza dão-nos conta da cultura passada e presente das camadas populares para documentar formas culturais que estavam a ser debilitadas pela acção conjunta das respectivas culturas de estado e das inovações tecnológicas.Ainda que os princípios por eles defendidos possam ser interpretados como mostras de conservadorismo, é preciso reconhecer que graças ao seu esforço podemos avaliar manifestações singulares que devem ser conservadas, dentro do possível, e até reactivadas para dar resposta às ameaças da globalização indiscriminada própria dos nossos tempos.
Só a prevalência dos modelos de organização social e económica, dos processos rituais e de um consequente mundo simbólico, possíveis pela especificidade ecológica da região, a sua história política e económica, justificam uma consciência de pertença por parte das comunidades aqui residentes a uma comum referência cultural, por mais variadas que sejam no presente as respectivas práticas sociais.
Mas essa consciência reforça-se quando os actores sociais tomam conhecimento de comuns características linguísticas e de um mundo simbólico muito próximo, verificado nas experiências da "Ponte … nas Ondas!", de que a cultura oral é máxima expressão.
Num mundo em transformação, onde as imposições ecológicas, económicas e políticas do passado já não se fazem sentir, a prevalência desta Tradição Oral está em risco, e a riqueza simbólica de gerações de mulheres e de homens que a viveram pode desaparecer.
No entanto, o propósito da valorização e da proclamação desta Tradição Oral não assume os contornos que no passado mais recente as teses folcloristas nacionalistas procuravam: celebrar uma pureza original, um "povo" que deve ser preservado de toda a modernidade e seja conforme aos ditames de um ideal ideológico que, pretensamente defensor de uma verdade cultural e étnica, se transforma numa escravatura da identidade perdida.
Este património é excepcional porque é a consubstanciação de uma vivência extraordinária de comunidades humanas entre uma natureza difícil e circunstâncias históricas originais, e que o faz com riqueza literária e imaginária inexcedível e sentido oportuníssimo.
Trata-se de um Património onde os temas da natureza, do amor, do trabalho, do bem e do mal, da fortuna e da desgraça, da descoberta e da admiração pelo mágico e fantástico e, de uma forma particular, pelo papel original e central que nele ocupa a mulher.
Nos contos, lendas, quadras alusivas ao trabalho, ao amor, aos santos, no sarcasmo das queimas de Judas e das festas dos rapazes, na ironia das cantigas ao desafio e nas outras cantigas, de que os nossos cancioneiros populares são exemplo, está todo o mundo cultural do Noroeste Peninsular.
Este é um património que os habitantes desta região assumem como seu, definidor de uma pertença comum entre outras tantas a que cada grupo se agrega.
Declará-lo Património da Humanidade é afirmar não só a sua excepcionalidade, a sua extraordinária criação e perseverança ao longo dos séculos, como querer partilhá-lo com a comunidade humana que habita o globo terrestre.
Sendo no passado muito frequente nas práticas quotidianas dos habitantes desta região, durante o seu trabalho e as suas festas, acompanhando os ciclos agrários e as romarias, agregando-se às profissões e aos artesãos, invocando a sorte e fortuna ou prevendo a desgraça e temendo o mal, esta Tradição Oral, dadas as transformações do mundo rural, prevalece hoje em pequenos apontamentos do quotidiano e deixa-se ainda revelar em ocasiões mais festivas, momentos de excepção, ligada ao canto e às danças ou, num assombro de celebração da natureza, nos rituais dos ciclos festivos e dos ciclos naturais.No quotidiano surgem os provérbios e os aforismos, as rezas, as descrições e prescrições da medicina tradicional, como se encontra no Barroso, a classificação do trabalho e das lides profissionais.
Ao sentido do quotidiano acrescenta-se o sentido do ciclo agrário e dos acontecimentos que ele proporciona: as sementeiras, colheitas e as malhadas.
Para toda a ocasião o Nordestino tem uma cantiga, para todo o trabalho uma reflexão rimada, para toda gesta um romance e para qualquer circunstância da vida um refrão.
Economistas, historiadores, sociólogos e antropólogos costumam estabelecer um horizonte de referência para fixar o começo duma crise irreversível no velho sistema cultural da Galiza e do norte de Portugal.
Apesar dos diversos antecedentes que anunciam esta crise, é na década de sessenta, do século XX, quando se produz uma emigração massiva junto com transformações demográficas intensas, tecnificação das explorações agrárias sobreviventes e das actividades pesqueiras, vulgarização de produtos industriais, acesso generalizado à cultura letrada e aos meios de comunicação, ou novas formas de família e de divertimento. Neste contexto as formas de cultura oral desaparecem ou sobrevivem na memória dos mais velhos, ou em circunstâncias em que as estratégias adaptativas à nova situação permitem conservar velhas técnicas, habilidades e celebrações que mantêm formas tradicionais ou atingem novos significados sociais, como, por exemplo, a de serem elevadas a símbolo de identidade local, galega ou portuguesa.
Por outro lado, o factor migratório, comum a ambas as comunidades e explicável pela deficiente economia agrária, é um fenómeno que tem a sua origem a partir de meados do século XIX e persistente ainda hoje. A emigração e a colonização levou a que esta cultura oral faça parte do património de países como o Brasil, Angola, Moçambique, Cuba ou Argentina.
Uma questão que valoriza de maneira especial esta candidatura é a referida à nova situação desta área geocultural como consequência da incorporação na União Europeia. Com efeito, se a Galiza girou na órbita do Estado Espanhol, e as terras situadas entre o Minho e o Douro fizeram o mesmo em relação ao Estado Português, agora começa a desenhar-se um espaço trans-fronteiriço denominado a euro-região Galiza-Norte de Portugal.
Nesta conjuntura histórica resulta de especial interesse recuperar o velho património cultural comum, que deve deixar de ser um património com formas coincidentes para ser cada vez mais um património de formas partilhadas.
Dito doutra maneira, a valorização da cultura oral galaico-portuguesa pode ser um caminho importante para reforçar uma relação inevitável por imperativos históricos, além de facilitar a projecção desta área em âmbitos europeus e universais."